Prismas da subjetividade
Como nos aproximarmos de nossa subjetividade?
Ao termo subjetivo são reservados os campos submersos, opacos e obscuros do humano e das relações sociais. Quando se diz que algo é subjetivo pode-se alegar que faz parte de um campo não francamente compartilhado, não explicitado e quiçá, não confiável. Mas são de subjetividades que somos feitos, porque subjetivas são nossas relações afetivas e sociais, subjetivos são nossos processos de aprendizagem formal e informal e subjetivos são os nossos sentidos. Também são subjetivas as interpretações que fazemos das nossas experiências do passado e do presente, que, enredadas pela memória, vão apontando perspectivas futuras. Subjetivas são as linguagens que as diversas culturas desenvolveram para nomear e comunicar o que entendem como realidade, ou o possível de se apreender do mundo, da natureza, da sociedade, do corpo e do próprio psiquismo.
É desse campo subjetivo singular que nos aproximamos no trabalho psicanalítico. A ideia é que juntos, psicanalista e paciente, estejam intimamente em conexão com as vivências que compõem o “eu”, na busca pela compreensão, conciliação e mais especialmente dos movimentos possíveis que direcionam o futuro, a partir da própria reinterpretação do passado e do presente.
Esse percurso se inicia com um diagnóstico que consideramos interventivo. Na psicanálise é através da palavra livre do paciente e da atenção flutuante do profissional que se constrói um olhar que detecte as diversas formas possíveis de se vincular ao mundo e ao outro.
Para quem chega, o diagnóstico permite o acolhimento inicial indispensável para o estabelecimento do vínculo. Seu nome, sua história pessoal e familiar, seu repertório de conhecimento, suas formas privilegiadas de ser e estar, sua representação de mundo e suas expectativas iniciais sobre o processo terapêutico são exemplos de questões que contribuem para o diagnóstico da sua subjetividade ainda no início de seu processo psicanalítico. O diagnóstico é uma recepção, um acolhimento, um interesse primordial do terapeuta por você. Esse olhar tem seus métodos, mas sua maior contribuição é permitir o seu desvendar, contribuindo para uma maior fluência dos roteiros que você se propõe.
Na clínica psicanalítica o diagnóstico e a intervenção ocorrem simultaneamente. Se em algum momento concluirmos juntos que você está, nesse momento, confiante de uma certa autonomia no seu percurso, se você, como disse Freud1, se sente capaz de amar e trabalhar, encerramos nossos encontros até que você deseje um novo processo. Mas, diante do enrijecimento sintomático de nossas formas de sentir, interpretar e existir - e todos enfrentamos dificuldades de natureza diversas em vários momentos da vida -, podemos seguir aprofundando nossa investigação, para que você possa viver suas experiências com mais leveza, menos dependência emocional e sofrimento psíquico.
1FREUD, Sigmund (1914). Introdução ao Narcisismo. In: Obras Psicológicas Completas, volume XIV. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1996.